SEMPRE MILTON DIAS

José Milton de Vasconcelos Dias (*29-04 1919 - Ipu - CE; +22-03 1983 - Fortaleza - CE ).

Após iniciar os estudos na cidade de sua infância, Massapê, vem para o Colégio Castelo Branco em regime de internato.

A experiência da infância em meio à paisagem sertaneja, seus mitos e ritos, lendas e cantorias, foi fundamental para a formação de sua sensibilidade criadora, uma vez que despertaria, no futuro cronista, a inclinação para o lirismo, o poético.

No Colégio Marista Cearense, onde realizou os estudos secundários, descobriu, em definitivo, a vocação da escritura. Sendo fundador dos jornais ´O Ideal´; e ´Alvorada´.

Em Paris, cursou os Estudos Superiores Modernos de Língua Francesa e Literatura Francesa.

O Governo francês o condecorou com a Ordem das Palmas Acadêmicas.

Foi professor de Língua e Literatura Francesa no Curso de Letras da UFC.

Bacharel em direito (1943), Letras (1966), professor secundário no CE e SP, tradutor, diplomado em letras neolatinas. Cursou Faculdade de filosofia. Técnico educação UFCE, secretário UFCE, contista, cronista, ensaísta, orador, jornalista, fundador e membro do Grupo Clã-movimento renovador das letras cearenses. Membro da Academia Cearense de Letras- cadeira nº 4- e Associação Cearense da Imprensa.


terça-feira, 25 de maio de 2010

OS MENINOS DE IRACEMA

Sei que nasci no Ipu- não que me lembre (já faz muito tempo), mas por informação. De mim mesmo, só recordo Santana do Acaraú e Massapê, onde fui menino. Como todas as pessoas nascidas antes dos processos de inseminação artificial, sou filho natural, mas legítimo, com papeis passados no cartório e na igreja. Meu pai acumulava as funções de boticário, dono de armazém de secos e molhados, enfermeiro e às vezes médico à força. Só há pouco tempo, num papel amarelo assinado pelo finado preside Justiniano de Serpa, descobri que, eventualmente, funcionava também como juiz substituto.
Chamava-se Pedro Dias Ximenes, morreu de repente, aos 35 anos e os filhos herdaram tão pouca coisa que até o sobrenome Ximenes não passou para nós, talvez por medida de economia. Ficamos com o Dias.
Minha mãe, Dona Iracema, é filha de um Coronel da Guarda Nacional, o coronel João Batista de Araújo Vasconcelos, maravilha muito falada, muito discutida e muito invejada, inclusive por mim. Desse avô gostaria de herdar a fada (uma farda azul, com alamares, dragonas e botões dourados, boné tipo exército francês, luvas de pelica branca, espada e tudo) a qual farda fez sempre muito sucesso nos dias de gala no interior. Nas procissões, principalmente. Gostaria de herdar também sua fibra: aos 68 anos contraiu segundo matrimônio com uma moça de 18 anos e desse consórcio houveram onze filhos, como se diz em boa linguagem tabelião. Ao todo são vinte e um.
Quanto ao resto, fiz o que fizeram todos os brasileiros classe-média. Curso primário com professora no interior, que tinha ordem de minha mãe para infligir qualquer castigo, menos pancada. Era, para os outros meninos e para a mestra mesma, uma exceção odiosa, na vigência da palmatória. Não ouso dizer que fosse uma criança sossegada. Meu pecado maior, além de sonso e preguiçoso, era rir das pernas das professoras. Neste ponto eu tive má sorte: só peguei uma de pernas grossas. As mestras se vingavam com muita imaginação. Uma delas me amarrava o caderno de dever às costas e me punha de pé na porta da rua, exposto à execração pública. Outra apreciava me ver de joelhos. Eu castigava nos nomes feios (da boca pra dentro) e malsinava aquela proibição da palmatória. Tirante isto e a mania de falarem mal de mim para a minha mãe eram boas pessoas, muito devotadas ao ensino. Depois que tudo passou, fizemos encontro de contas, ficamos amigos.
Fiz exame de admissão no Colégio Castelo Branco, onde fui interno. Foi aí que me dei com Dona Carlota Joaquina (ainda não sabia que era uma peça tão ordinária), com Dom João VI e o nosso traquinas Pedro I. Gostei de quase todos, mas apreciava particularmente a Paraguaçu (talvez por causa daquele adjetivo “formosa” acompanhando sempre o seu nome) e a Marquesa de Santos. Nunca perdoei os que fizeram a guerra do Paraguai: eram três capítulos muito longos para prender de cor. Sempre achei que devia ter sido evitada, com tanto “voluntário” seguindo armado.
Depois da primeira série, com notas de matemática um pouco desonrosas, ( ainda hoje responsabilizo aquela remota álgebra pela queda do meu cabelo) me mandaram para o Colégio Cearense. Nesse tempo passei a externo, morava na casa do tio Deusdédit, um tio-doutor, irmão mais velho de minha mãe. Esse tio me ensinou muita coisa, a mim e aos meus irmãos. Devo-lhe tanto e ainda lhe devo todo o Eça, que fui roubando à prestação, da sua estante e lendo escondido, aí por volta dos doze anos.
Falando em irmão, tenho quatro. A gente era “os meninos da Iracema”, em Massapê. Me lembro que no final das novenas, as moças do côro cantavam na igreja um hino bonito, pedindo proteção para a terra de Alencar e pedindo alegria, paz, saúde, fortuna, felicidade para “os filhos de Iracema”, uma evidente alusão aos cearenses. Um dia, dona Mimosa protestou junto ao padre: – por que não pediam as mesmas graças para os filhos de Mimosa?
A família achava que filho criado sem pai não dá para nada, aí aquela dita dona Iracema, de medo que a praga pegasse, nunca perdoou nada aos meninos: a punição comia por qualquer dá-cá-esta-palha. Quem sabe, foi talvez por isto que todos chegaram ao fim do curso universitário: um deles é dentista, outro é doutor médico, o mais novo é engenheiro. Minha irmã se diplomou em casamento. Stela, Wilson, Miron, Batista. “Tutti buona gente”. Eu fiquei mesmo bacharel.
Voltando à dona Iracema, devo esclarecer que é pessoa inteligente, com muito senso de humor e bastante faro para o anedótico. Tem um talento especial para descobrir o traço caricatural das pessoas com quem conversa. Tenho pena porque deixou de ir ao mercado diariamente. Era muito bom, naquele tempo: podia voltar sem carne, mas não voltava sem uma estória engraçada, como a daquela moça que estava encalhada, encalhada, não achava casamento. Foi só se diplomar em datilografia, no mesmo mês ficou noiva.
Que é que querem saber ainda? Ah, sim– nunca levei mulher nenhuma aos pés do padre. Tenho levado a outros lugares. Somente uma vez estive gravemente noivo, mas escapei, para surpresa geral e minha em particular. Não me acuso de nenhum filho.
O resto vocês todos já sabem, isto que a gente faz, que a gente vive, que a gente ama e sofre, dinheiros pequenos pela porta da rua, por caminhos vagarosos, a luta por um lugar à sombra, a família para a gente ajudar, os ganhos poucos, trabalho de professor, trabalho de burocrata, trabalho em redação de jornal. Passei ponte, passei rio, andei pelo mundo, naveguei, penei, amei, desamei. Faturei alegria, loteei tristeza, fui mais desamado do que amado. Somando tudo, esta estória tão grande para contar– o triunfo da sobrevivência, que já não é pouca coisa.
E se vão pensar que vou terminar sem falar de nenhuma gloria, estão muito enganados. Eu lhes conto a do meu prêmio literário, que me comoveu tanto: um senhor leu minha crônica sobre caminhão, me telefonou, ofereceu um prêmio– uma passagem de graça na boléia do seu “Chevrolet”, daqui até São Paulo, ida-e-volta. Que só pagaria mesmo, disse ele, a comida que comesse e a pousada para dormir.

De A ilha do homem só
SOCORRO

Socorro veio do sertão de ponto feito para o emprego– e saiu melhor do que a encomenda: falante, cantante, fumante, desconfia-se que também amante das suas bicadas pelos caminhos da noite, que ela freqüenta oculta e prudentemente. Em conversa, faz praça da sua honestidade irrepreensível de donzela virgem, pura, invoca princípios e ensinamentos maternos, defende a honra com muita convicção e já decidiu que homem na sua vida só entra pela porta do matrimônio no padre e no juiz. Mas isto são falas a que não se pode dar muita valia, pois uma amigota, companheira de andanças aventurosas, já denunciou caso seu com homem desquitado. Depois, foram ver, o homem nem separado era, estava muito bem com a sua legitima esposa e com a prole numerosa para os tempos dagora– pois são seis ao todo. Deu até queixa na policia, depois de discussão acesa.
Tudo isto Socorro esconde– e quando aparece na boca da cena em figura doméstica, assume o tranqüilo ar de bem comportada, lembra sua devoção ao Padre Cícero, que lhe resolveu muitas dificuldades, obrando milagres que vai contando de maneira minuciosa no seu falar pitoresco.
Pois esta dita Socorro abandonou seu lugar de doméstica e foi trabalhar de balconista em casa comercial, com um senhor tão seu conhecido, que ela trata simplesmente pelo prenome, agravado com o diminutivo: – É Pedrinho pra lá, Pedrinho prá cá. Quando a ex-patroa, no momento exato que a Socorro se demitia, estranhou que tratasse o patrão com tanta intimidade, ela se explicou triunfante:
– Ora, eu conheço o Pedrinho há muito tempo. Foi até ele quem matou meu pai...
Estarrecida, a senhora não deixou de lhe manifestar seu óbvio espanto e lhe pedir explicação da sua ausência de escrúpulo, passando a trabalhar com o homem que lhe matara o pai. E, justamente curiosa, indagou direta: – Matou de quê, de faca ou de tiro?
– Ah, não senhora. Matou de feitiço. Não vê que meu pai era candidato a vereador, ele ameaçou na campanha, que havera de mandar fazer um feitiço para ele não se eleger. Dito e feito. O pai adoeceu, foi minguando, foi se devorando na febre, quando ele já andava nas últimas, nós mandamos buscar uma macumbeira nas praias– ali pelas areias do Acaraú. A mulher foi, coitada, mas ela mesma disse que já chegava tarde, nem pôde fazer mais nada.
Fosse um dia antes, ainda tinha dado jeito– mas naquela hora, o feitiço já estava muito entranhado. O mais que podia adiantar era um trabalho pro pai não ir pro inferno.
Quando lhe indagaram por quanto sairia o “trabalho”, a mulher até se ofendeu. Que dinheiro não passava pelas suas mãos, que não havia de cobrar pelas forças que Deus lhe dera. Só precisa do material, que era pouca coisa: uma cabra preta, um saco de farinha, um saco de goma e um saco de feijão. Sim que não era pra consumo, era destinado mesmo ao seu mistério de invocação e de comunicação direta para garantir salvar o infeliz das penas eternas.
Cabra tinha sim, mas não era da preta. Aí um filho do moribundo se atacou pelas propriedades da vizinhança, já levando uma malhada, para negociar a troca. Ah, meu Deus, o que ele andou por aquelas beiras de estradas batendo de casa em casa à procura duma cabra no modelo exigido. Só voltou no dia seguinte, quando o pai já tinha entregue a alma a Deus. Felizmente a mulher garantiu que já tinha começado as preces, que de volta prá casa era só tratar de executar o trabalho propriamente dito. E lá se foi de volta aos seus pagos, com a cabra preta, a goma, a farinha e o feijão. Ah, sim, tinha também um quilo de sal nos implementos.
Passou-se muito tempo, sem que o finado desse notícia, nem ele, nem a feiticeira, nem a cabra, nem nada. Enquanto isto, a família sofria a incerteza, tinha medo de que o infeliz, além de sucumbir ao feitiço, estivesse queimando no fogo do inferno. Então a dita Socorro recebeu uma carta da mãe, contando sonhos horríveis com o marido, pedindo ajuda e adiantando que uma vizinha o tinha visto soltando um fogo roxo pela boca. E a macumbeira, por sua vez, tinha desaparecido completamente. Como dizem lá: abriu-se o chão e não encontraram mais a mulher.
Foi aí que a Socorro, expedita e oportuna, lembrou-se de recorrer à sabença dum pai-de-santo prestigioso, aqui mesmo em Fortaleza– um homem de muita convivência com as forças do Alto, que também acudira a sua amiga nas trevas duma paixão desencontrada e atacada por malefícios que lhe fora feito em terras do maranhão, por uma Ph.D no assunto.
Sabem o que foi que o homem disse? Que só podia garantir o trabalho se lhe mandassem uma cabra.
Da preta!

De As outras cunhãs.

sexta-feira, 14 de maio de 2010



NASCIMENTO, VIDA, PAIXÃO E MORTE DA NOITE

O sino badalou as seis horas como um dobre de finado pelo sol que agonizava, correu um murmúrio de prece no mundo, acenderam-se velas e pouco depois, banhado em sangue, o mesmo sol morreu afogado no mar, como convinha.
Foi nesta hora neutra que a noite desceu, indecisa e pálida, mas cresceu de repente, ganhou corpo, cobriu-se com um vestidinho preto e o estendeu por igual de alto a baixo, em cima da cidade. Pôs cadeiras nas calçadas, apagou o fogo das cozinhas, acendeu a luz, trouxe crianças para a rua e fez cirandas com elas, cantou cantigas de roda, chamou pretas velhas para os batentes das portas, as quais pretas permutaram estórias, cachimbaram, cochilaram, trocaram lembranças antigas de outras noites irmãs.
E porque a Noite era uma menina ingênua, rezava ainda, guardava no ouvido o toque recente das Ave-Marias, promovia na terra uma atmosfera de sinceridade e de pureza. Logo depois fecharam as igrejas.
A Noite então ficou adolescente, visitou hospitais, adormeceu doentes, acalmou loucos, cessou tosses, calou soluços, apagou prantos, entrou nas casas, embalou crianças, recolheu todos os velhos e os fez dormir tropeçando em cochilos, com sonhos raros, sono leve mas constante. Baixou as pálpebras das aves e dos pássaros, deitou tranqüilamente os justos, ninou os santos, os bem-aventurados, os que rezam cedo e dormem cedo.
Passou-se o tempo, a Noite ficou moça, juntou gente nas avenidas, promoveu festinhas, abriu cinemas e teatros, entrelaçou as mãos dos namorados, fez quermesses em suburbanos pátios de igreja, correu às matas, juntou-se ao vento, assobiou nos cipós, deitou sombra, insinuou encontros e os animais atenderam ao estranho apelo.
Foi a essa altura que começaram as serenatas, a Noite ficou romântica, chamando amor, juntando violeiros, cantadores, jograis e poetas, inspirou baladas e madrigais e velhas cantigas foram cantadas debaixo das sacadas de janelas, com trêmulos de voz saindo de jovens peitos apaixonados.
Seduzida pelo mistério, atraída pelo desconhecido, a Noite vedeta vestiu-se de negro violento, enfeitou-se de estrela, escureceu caminhos e ruas e montes e mares, uniu amantes, alcovitou, assistiu a macumbas em terreiros Xangô, ganhou o rumo do mar, explorou beiras de praia. Por volta das doze horas, tinha entrado em todos os bares, ficou alta, perdeu-se.
Foi aí que começou sua vida airada, alegre quadra, embuçou-se, abriu cassino, buate, cabaré, gafieira, chamou músicos, povoou as ruas de gente barulhenta, enterrou tristezas, conheceu todos os vícios, embriagou-se, foi cantada, louvada, amada, desejada, foi possuída por ladrões e grão-senhores, acomodou no seio imenso todos os boêmios, provocou adultérios, enfrentou perigos, abrigou mulheres de má vida, viu correr sangue, viu rosas e gente nascendo, ela mesma abriu porta de cadeia e de prostíbulo. Ficou grávida de mistérios, testemunhou traições e lealdades e todos os notívagos, seus filhos, ainda no ventre aconchegante, confraternizaram. Eram todos alegres irmãos.
Depois a Noite foi esfriando, foi decaindo, foi envelhecendo, foi perdendo a cor, os amantes, os amigos, perdeu o nome, virou madrugada e assim, sonolenta, frágil, abandonada por quase todos (só alguns poucos filhos fieis lhe assistiram os momentos finais), sem música, sem canto, quase sem voz, estertorou, morreu, espalhou restos na terra, no ar, no mar. Malsinada pelos filhos infiéis: pelos guardas noturnos, enfermeiros de plantão, vigias, por todos os que trabalham enquanto outros gozam, repousam ou se divertem. “In extremis” ouviu ainda o galo, ansioso e bajulador, que saudava o sol nascente: a Rainha morreu, viva o Rei.
E aqueles todos que tinham amado a noite-menina, os que amaram de amor puro, as crianças, os velhos, os enfermos, foram os primeiros que acordaram e, esquecidos dela, saudaram também o sol e bendisseram novo dia.

De A ilha do homem só.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

QUE MUNDO É ESTE?

Que mundo é este em que vivemos, que rapidamente se desvairou e traz o povo perplexo e desarvorado em cada amanhecer, em cada anoitecer, com as noticias de desgraças por toda parte cruzando o espaço, transmitidas inexoravelmente pelo radio, pela televisão, repetidas nos jornais com abundantes detalhes? Parece que as forças da natureza se uniram aos desmandos dos homens: além de furacão e tremor de terra, os assaltos, os seqüestros se multiplicam produzindo uma constante de insegurança, para não dizer de pavor. Será que soltaram as bestas do Apocalipse, ou são apenas as bruxas no exercício rotineiro das suas funções?

Nesta linha de idéias que vez por outra fatalmente nos ferem e conduzem à indesejada depressão, chega-se a ter nostalgia do mais antigo outrora, daquele tempo que não se conheceu pessoalmente, de que apenas se teve noticia, a doce vida do princípio do século, dourada com o deslumbramento que as descobertas iam acordando, despertando a curiosidade, exatamente porque ultrapassavam os limites das possibilidades então conhecidas, provocando na imaginação do povo cogitações ousadas e fantasias atrevidas, objetos de longos comentários nas tranqüilas conversas de cadeiras na calçada.

O escritor José Cândido de Carvalho disse uma vez que o mundo só foi bom até o advento do automóvel. Sei lá, realmente era tudo muito misterioso e distante, a vida era mansa, tinha ritmo mais lento, mais humano, as gerações se sucediam cumprindo os mesmos princípios, sem conflitos: os filhos, os netos e bisnetos repetiam as atitudes dos seus antepassados sem protestos e sem recalques.

Muito depois inventaram os complexos, complicaram a educação, aposentaram a palmatória, deram às crianças, sobretudo os adolescentes, liberdade total, a qual liberdade muito deles usaram desastrosamente, com a cumplicidade do volante e o tempero das drogas. O diálogo se impôs como uma necessidade, mas, ao mesmo tempo, tornou-se instrumento de rebeldia- e por trás desta palavra mágica de inegável importância no nosso contexto, já muito falta de respeito à autoridade paterna tem ocorrido, já muito drama foi vivido e sofrido.

Longe de mim a idéia de deitar carrancismo e rancor contra as novas gerações, que têm seus encantos e virtudes: reconheço que os bons de hoje são melhores do que os de ontem, mais sinceros, mais abertos, mais francos, despojados das passadas hipocrisias. Os realmente bons são ótimos: bem-aventurados, pois, os pais que os têm.

Apesar de todo um complexo sistema educacional, apoiado em teorias e experiências que cada dia se renovam, difícil é saber que rumo tomar para a orientação de um filho, num mundo tão conturbado, tão marcado por maldades e percalços, tão pertubadoramente alucinado. Uma senhora se queixava outro dia que não sabia como fazer: se prender os filhos vem o demônio dos complexos; se soltar vem o diabo do perigo a que se expõem os meninos verdes e meninas em flor que se mandam sozinhos para as alegrias da noite e retornam para casa ao romper da aurora.

Quem sou eu, para ensinar como fazer? Cada vez respeito mais e admiro mais o trabalho dos pais e mestres que sabem conduzir seus filhos e alunos com a devida habilidade, preservando-os sabiamente nesta difícil, agitada maré reinante.

Não faz muito tempo um amigo chorou no meu ombro, confessando seu total fracasso na direção da família. Foi praticamente apeado do poder domestico: assim que os filhos completarem dezessete, dezoito anos, deram o grito de independência e saíram por aí a provocar desgosto em cada fim de semana, de tal forma que a partir de sexta-feira começa a correr-lhe um frio na alma, com medo do que possa acontecer de terrível a essas aves implumes soltas nos caminhos da madrugada.

Não se conforma com a perda do controle, recorda os padrões em que se criou, a força que fez para se afirmar na vida, vindo duma camada social pobre, a vitoria que alcançou com seu suor, os empregos humildes que exerceu, as dificuldades que enfrentou na cidade que lhe era estranha, as economias que fez, a pecúnia que amealhou, a situação que conquistou, elevando-se mesmo à categoria dos ricos. Diz que os meninos se aborreceram e debicam quando ele evoca todo esse passado dolorido, a história do homem que se levantou por conta própria, que se fez só com o seu trabalho e a ajuda de Deus, que deveria ser contada com alegria, como modelo e lição.

Pior é que o cupim está em todas as camadas. Semana passada andou aqui a Tereza Paixão, uma mulata velhota, pequena, humilde, lavadeira de profissão, que tem as mãos engelhadas do seu oficio e os dedos enrugados até as pontas. Cedo enviuvou e criou a duras penas os filhos tacitamente confiados ao seu único encargo. Coitada da Tereza Paixão, fazia tempo que eu não a via, parece agora uma pintinha molhada, indefesa, está um caquinho, minguado, sumindo, se devorando no sofrimento. Aqueles filhos que lhe custaram tanto cuidado, trabalho, sacrifício e afeição, que ela tratou como pôde, alimentou, embalou em longas noites de vigília nas doenças, deu escola e ensinamento, estão lhe atormentando a velhice. Não vê, a mais velha se tresmalhou mal se pôs moça, instalou-se oficialmente como mulher de má-vida. E o que mais lhe dói é que a filha nem lhe aparece para pedir a bênção. - Que bênção eu dou (assim foi o seu falar), mas não posso impedir o choro quando me lembro do seu destino. O outro, que lhe vinha encostado, sentou o pé no mundo, nunca deu noticia. E o terceiro já é um virtuoso consumidor de cachaça, vive desempregado, curtindo seu bom cascarobil. Agora já lhe assombra o mau exemplo para os menores, para as duas que estão ficando mocinhas. Ah mundão cheio de surpresas!

Deus me livre de deitar nuvens na alma do leitor, por conta destes poucos exemplos isolados. No plano da conversa puxa conversa, quando se comenta os desvarios da humanidade, baixa de quando em quando um rápido momento depressivo, que nos leva a indagar que mundo é este em que vivemos. Mas não há razão para desesperos: basta atentar para o número de jovens que cada ano concluem seus curso universitário, basta lembrar os milhares que se inscrevem na guerra do vestibular, os que estão participando de movimentos sadios, construtivos. Basta ver aqueles moços que espontaneamente se oferecem nos asilos de idosos para tomar um velho sob sua guarda, um ancião para seu afilhado.

No mais, a vida continua mantendo sua reserva de beleza e uma palavra de compreensão, de apoio, um gesto de bondade, valem muito mais do que toda a maldade acumulada.

De repente nos refazemos da depressão, reagimos contra os maus pensamentos, redescobrimos que não vale a pena fazer coro com os eternos inconformados, abrimos os olhos para os que estão cuidando de preservar os valores morais e espirituais do homem, volvemos à confiança na humanidade, recorremos à lição de que “a única atitude possível diante do absurdo da vida é uma resignação com humor”. Nem tudo está perdido e amanha é outro dia, com a graça de Deus.
De A capitoa

A UM NOIVO QUARENTÃO

Amigo, sempre chegou tua comunicação de noivado, apesar de tantos contratempos e desencontros, e chegou num momento em que deveriam chegar todas as participações como esta, depois de alguns dias de chuva impertinente e copiosa, com o aparecimento imediato, inesperado, dum sol festivo iluminando o mundo, promovendo uma singular imitação de primavera durante algumas horas da manhã, tão parecido com o tempo de nós meninos, no sertão, gozando com a mesma volúpia a chuva e o sol.
Apesar de tantas alegrias inesperadas e belas, ainda me sobrou de saldo uma preocupação, verdade que pequena, medindo talvez desse uma gota, ou duas, mas preocupação é feito veneno, tem delas grandes que não ofendem muito, tem umas pequenas que deprimem, dão até pra matar. Tudo por conta de duas frases que acompanhavam o cartão, umas poucas palavras em que manifestaste o temor de não encontrar mais lugar, nem tempo, nem razão para o amor grande como este teu, que chegou à beira dos quarenta, e o confessado medo de que isto, que agora é amor, venha depois de se tornar aquela coisa insossa da maioria dos casamentos, a tolerância mútua, a rotina, ou, mais exatamente, apenas a coexistência pacifica por via de interesses comuns, os filhos, os bens, a casa, a preguiça de outras aventuras, a triste acomodação.
Homem de Deus, para que malinaste uma coisa destas, por que deixaste tua cabeça pensamentear preocupação assim? Antes tivesses rebolado longe a idéia infeliz, como se faz com urtiga, não devias verbalizar o receio, nem escrever, nem deixar tomar corpo, nada: matar no nascedouro. Pois ninguém se habilita para o casamento, com o favor de Deus, pensando que se vai dar mal, ninguém vai pensando em desmanchar, ninguém vai assuntando desquite nem perda de amor, nem divórcio. A menos que esteja mal intencionado, como quem vai aos pés do vigário confessar pecados e, em vez de arrependimento verdadeiro, como manda a Santa Madre Igreja, já está calculando o dia em que vai reincidir, pensando num prazo razoável para recomeçar tudo de novo. O que, decididamente, não é o teu caso.
Sacode fora o mau pensamento, irmão, que é ver coisa de bruxaria, vai na raça, vai que é bom e encara o futuro como homem de juízo, nem imaginando tudo cor-de-rosa, nem vendo tudo negro, vai com Deus, sabendo desde já que terás de amar, de sofrer, de trabalhar mais pela sobrevivência, pela manutenção do famoso “padrão de vida decente”, que custa os olhos da cara, a gente sabe. Mas também se sabe que não te faltará coragem, nem senso de humor, nem inteligência, nem o amor da mulher escolhida, nem as alegrias da paternidade, nem as respectivas preocupações, nem o encanto, nem o desassossego.
É ingênuo imaginar que não há mais lugar, nem tempo, nem razão para amor tão grande assim, é ingênuo ter medo de decepção, como se a televisão, o rádio, as experiências nucleares tivessem mudado a nossa forma de ser, como se o coração não fosse o mesmo, não reagisse da mesma forma humana. Terá mudado, talvez, a maneira de manifestar-se, mudaram as expressões, variou o uso da declaração feita em versinho flor de laranjeira em “papel amizade” mas os elementos que compuseram o amor do primeiro homem e da primeira mulher, em cima deste chão velho, ainda são os mesmos.
Quem contrai amor grande vai experimentando ainda os mesmos sintomas: perto não acalma, não sossega longe, junto pode estar tranqüilo, longe pode estar inquieto, não sossega nem o gente nem o objeto, tira o sono, traz o sono, dá preguiça mas pode dar disposição, dá leseira e dá esperteza, alegra, entristece, maltrata, alivia, é o diabo, é um inferno, é o céu, de amor se vive, por amor se vive e se mata por amor e de amor- não tem quem entenda e todo mundo entende. E melhor será tê-lo que não tê-lo. Vai que é bom...



De Cartas sem resposta.



O JULGAMENTO


Ontem aportei numa barbearia de subúrbio, destas em que os barbeiros ainda julgam da sua obrigação entreter o freguês com a conversa, enquanto o atendem, ou durante a espera. Foi exatamente naquele dia em que um homem assassinara a mulher com 32 facadas. Eu tinha visto a manchete a distância, mas não lera o corpo da noticia, por isto não conhecia nem conheço detalhes, sei apenas que foi por ciúme, ou, se quiserem, por amor. E o assunto que começara justamente na minha cadeira, dentro de pouco tempo se alastrou, apaixonou o salão todo, e barbeiro e fregueses serviram-se fartamente do tema.
O que começou a conversa reprovara o crime com expressões banais, repetindo frases feitas para a ocasião e descambou rapidamente para o seu caso pessoal:
- Ora que doidice! Estragar a vida por causa duma mulher (não lamentava o óbito, mas a cadeia). – Pois eu estou doido que a minha lá em casa me deixe. Faz até um favor.
Um outro, de meia idade, foi categoricamente contra o assassinato e também derrapou para o plano particular, lembrou a sorte que tivera no casamento, gabou-se da família bem constituída, os filhos trabalhando, as filhas casadas, informou que dentro de trinta anos nunca reinara ciúme no seu lar. E de certo modo se explicou com bastante humildade: - Sim que a minha mulher não é bonita. Quando resolvi escolher moça, foi logo no que eu pensei, foi não carregar perigo para dentro de casa.
Um jovem moreno reprovou as 33 facadas, mas aí foi uma reprovação mais de ordem técnica, criticou a má pontaria criminosa. E um outro, que estava lá simplesmente a perder tempo, concordou em gênero, número e grau com o assassinato, achou tudo muito certo, ate julgou que 32 facadas ainda eram poucas. Isto se, na verdade, o ciúme tivesse fundamento, se a vitima realmente estava traindo o marido. Que mulher traidora não merece outro destino, concluiu incisivo.
Um barbeiro moço, que estava sem freguês, foi o ultimo a falar. Este aprovou igualmente o crime, também no caso de se tratar duma adultera, mas reconheceu que houve inflação de punhaladas, não precisava tantas. Assim já era ferocidade.
Dentro de pouco tempo eu tive a impressão de estar no mais agitado tribunal do júri, uns na defesa, outros no ataque, a questão do amor, do ódio e do ciúme, foi abordado copiosamente- e ainda não tinham chegado a um acordo, quando a manicure, a única no salão, tomou a palavra.
Ah, vocês precisavam ver a valentia daquela mulher pequena, magra, em cima do solto alto, os brincos balançando, acompanhando o inquieto movimento da cabeça, os olhos de víbora querendo saltar das orbitas, as mãos pequenas, expressivas, agitadas em gestos largos, a voz empostada no volume mais alto, tomando a defesa das mulheres, feito oradora em comício.
Arrolou todas as conhecidas razões do seu sexo, a famosa igualdade de direitos nunca reconhecida, e excessiva liberdade dos homens, a prepotência, o complexo de machismo. Claro que usou vocabulário mais pessoal, mas o sentido esta sendo reproduzido com fidelidade. Falou no grande numero de maridos que vivem mais na rua do quem em casa, os que traem a esposa abertamente, ainda se dão ao luxo de ter ciúme e impor restrições, fazer exigências de toda ordem- E, sabem duma coisa?- interrogou conclusiva. - Homem ruim foi feito pra ser traído.
Então aquele senhor mais velho, que representava a experiência, o poder moderador, o que de tão prudente casara com mulher feia, enviesou um olhar de repreensão e no seu lento falar, economizando gestos, criticou o exagero das opiniões da moça e os enganos em que incorrera, principalmente quando falara em marido ruim. – Porque aí, disse ele, é que está o erro maior. Os maridos mais traídos são os bons, pode prestar atenção. E homem bom não merece nem traição nem punição.
A discussão se generalizou, passara à casuística. E o mais curioso é que os exemplos foram tomados entre gente conhecida do bairro, citaram nomes, endereços, davam detalhes, coloriam os casos com a maior tranqüilidade.
Quando estavam neste ponto, que já lembravam mais uma cena de teatro do que salão de barbearia surgiu uma figura imprevista, certamente o tipo popular do bairro, um homem de prováveis sessenta anos, as mãos cheias de samambaias, o olhar aceso por bicadas de cana que o hálito denunciava. Chegou dando viva à chuva (chovia, sim) louvou a Deus nas alturas e pediu paz, na terra, para os homens de boa vontade e ofereceu plantas. Que ali estavam só amostras, ele podia buscar mais para quem se interessasse. De repente recomeçaram a discussão, o homem das samambaias percebeu o tema reimoso, foi saindo reprovador, com estas palavras:- Eras! Aqui só se fala em desgraça. E se despediu sem uma palavra.
Foi o tempo que terminaram a minha barba, eu paguei e saí pensando na rapidez, na diversidade, na fragilidade do julgamento humano.

De A capitoa


A CARTA DO MORTO


Recebo estranha carta, acompanhada de um bilhete, em que o remetente esclarece haver captado o texto numa comunicação do Além, acrescentando que o autor, que se dizia meu leitor terreno, pedia que se dirigisse a mim para a publicação. Bastante dúvida penei, antes de resolver atender ao bizarro pedido. Como não quero ficar devendo nada às almas, pelo sim ou pelo não, aqui vai transcrita a mensagem.
“Não faz um ano que desencarnei- o que não é nada, com relação à eternidade. Estava com 61 anos e caminhava tranquilamente de volta para casa, depois dum dia cansativo, carregando meu embrulho de pão debaixo do braço, ruminando a bronca que o chefe me passara, só porque eu tomara alguns minutos do trabalho, para fazer a loteria esportiva. Justamente, eu pensava na minha vingança, se tirasse o bolão. Nisto, um carro, correndo numa velocidade doida, saiu lá da sua mão, na pista, veio me colher do lado oposto.
Miserável, foi dizer no DETRAN que eu atravessei, que a culpa foi minha- não houve ninguém que quisesse perder um pouco de tempo depondo em meu favor. Deixa estar que ele me paga.
Fiquei dois dias no necrotério, entre dois defuntos mal cheirosos, esperando que alguém me fosse identificar. Minha família pensava que eu andava por aí, na reinação do mundo, só porque, trinta anos antes, eu morava no Rio de Janeiro, desci para pegar uma caixa de fósforos, num sábado de carnaval, só apareci na quarta-feira de cinzas. Iludição da juventude.
Sim, minha mulher me reconheceu logo, fez praça de esposa-amante, ali mesmo exerceu um ataque, que foi sempre a sua especialidade e quando voltou do esperneio, foi se lamentando (isto também ela sempre fez com sabedoria), falando da falta que ia fazer. Tudo amostração, claro. Ela bem sabia que eu ia deixar alivio, já estavam todos com medo da minha aposentadoria, rosnavam que eu ia ficar chateando em casa o dia todo. Ficou bem, a velha. Deixei o Instituto, os Merceeiros, um montepio (que eu vinha pagando há pouco tempo), uma casinha, um terreno comprado a prestação. É capaz de ainda se enxerir pra casamento.
Saiu meu retrato no jornal e eu sei que algumas pessoas se comoveram- certamente pelo trágico do acontecimento. Mas no velório se comportaram muito mal, riram, contaram piadas, beberam e me ignoraram completamente. E dois deles, eu ouvi, falara de mim, donde se vê que na terra não se respeita mais nem defunto, que antigamente era como coisa sagrada. Pior é que exatamente os que falavam, eram os mais cheios de defeitos, agora eu sei. Não pude me levantar para dizer que não apontassem o erro alheio com o dedo sujo. Atacar um homem eternamente indefeso é a maior covardia. A partir de meia-noite, até às cinco da manhã, fiquei completamente só, com as quatro velas me pranteando: os de fora foram embora, os de casa foram dormir.
Meu chefe apareceu para os pêsames, demorou dez minutos, desculpou-se porque não podia ir ao enterro, ofereceu-se para alguma dificuldade. Bicho falso! Nem foi à missa de sétimo dia e quando minha viúva o procurou, mandou dizer que não estava. E o que me matou, não apareceu, não deu noticias até hoje.
Minha passagem foi muito boa, até agradável, acolhido que fui por alguns conhecidos. Aqui reina um silencio grande, “sepulcral”, como se costuma dizer aí, mas a gente revê amigos, se comunica pelo pensamento a até regozija pelo encontro. Ainda não fui chamado para a prestação de contas, me disseram que as filas do purgatório e do inferno estão maiores do que as do INPS. Reconheço humildemente que pro céu não posso ir direto.
Enquanto isto, como aqui se sabe de tudo, nossa distração, além das preces, é acompanhar o que se vai passando no mundo e descobrindo, com surpresa, a lama que corre na alma de muita gente, que eu considerava perfeita- exatamente alguns que se arvoram em críticos, os conhecidos censores, os mais gulosos da vida alheia, os mais categóricos no julgamento, os mais radicais na condenação. Eu bem sabia que a humanidade é terrivelmente pecadora, que os degredados filhos de Eva estão degradados, na sua maior parte, mas nunca imaginei que a iniqüidade chegasse a tanto. Tem muito mais ladrão do que se pensa, tem muito mais viciado do que se cuida e quase todos, sendo inteligentes, fazem sua defesa atacando os outros (os mais faladores são exatamente os que têm mais rabo de palha). E a hipocrisia, a maldade, a traição, os falsos amigos, a ingratidão, o orgulho, a falta de caridade, a vaidade excessiva, a desonestidade, a volúpia de humilhar, Santo Deus!
Como sou novato (um ano é um pingo) ainda não sei se a gente pode se juntar para brincar de bandido e pelo menos fazer susto e medo aos vivos, sem fazer mal. Sim, porque na hora de pensar em vingança, acode-me à mente o pai Nosso: “ Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos os que nos têm ofendido”. Mas hoje eu encontrei dois espíritos que me apareceram bastante zombeteiros, espiando uma cena imprópria, proibida, ousada, de gente muito conhecida na terra. Eu aconselhei, eles fizeram que não ouviram. Não; minto: um deles me deitou uma repreensão de veterano.
Tenho esperança de encontrar algum saldo: vivi pobre, sofri injustiça e humilhação, padeci moléstia, não realizei nada do que contava quando jovem. Logo eu, que só pensava em Paris, champanhe, caviar, mulheres. Entrei pelo cano. Os pecados maiores foram mesmo os alegres prazeres da juventude, e a minha maior dificuldade no momento é me arrepender deles. Confesso que talvez tenha errado menos, por falta de meios: a pobreza acaba encaminhando para a virtude. Casei cedo e mal, vivi num inferno com a minha legitima, de quem nunca me separei por falta de dinheiro e coragem.
Verdade seja dita, sempre acreditei em Deus, fui sempre um homem sincero, procurei ser autentico até nos erros, respeitei o próximo, rezei diariamente minhas orações, cumpri meus deveres. Agradeço aos que estão respeitando a minha ausência. Orem muito. Adeus, até o infinito. A paz de Deus seja convosco”.


Do livro A capitoa